Você já sentiu que existe um “padrão” nas suas dificuldades? Talvez você sempre escolha parceiros que acabam te abandonando, ou sinta uma culpa paralisante toda vez que comete um pequeno erro no trabalho. Às vezes, parece que carregamos um roteiro invisível que nos força a repetir os mesmos dramas, não importa o quanto tentemos mudar.
Na Terapia do Esquema, desenvolvida por Jeffrey Young e detalhada na obra de Ricardo Wainer, esse “roteiro” tem nome e sobrenome. São os Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIDs). Se nos artigos anteriores entendemos o que são as necessidades básicas e como o cérebro processa essas emoções, neste artigo vamos mergulhar na lista completa: os 18 esquemas que formam a arquitetura da nossa personalidade.
Pense nos esquemas como “lentes de contato” coloridas. Se você usa lentes azuis, verá o mundo azulado. Se suas lentes são cinzas, o mundo parecerá sombrio. Conhecer esses 18 esquemas é como aprender a identificar a cor das suas lentes para que, finalmente, você possa começar a enxergar a realidade como ela é.
O Mapa dos 5 Domínios
Para facilitar o entendimento, os 18 esquemas são agrupados em 5 Domínios. Cada domínio corresponde a uma necessidade emocional básica que não foi atendida na infância (como vimos no Artigo 1).
Domínio I: Desconexão e Rejeição
Este é o domínio mais profundo. Ele surge em famílias frias, rejeitadoras, explosivas ou isoladas. O sentimento central aqui é: “Eu não pertenço” ou “Eu não sou amável”.
1. Abandono / Instabilidade
A pessoa vive com a sensação constante de que as pessoas que ela ama vão morrer, ir embora ou abandoná-la a qualquer momento. É o medo da perda iminente.
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Na vida adulta: Ciúme excessivo, necessidade de contato constante ou, por outro lado, evitar relacionamentos para não sofrer a perda.
2. Desconfiança / Abuso
A crença de que os outros vão te machucar, enganar, humilhar ou se aproveitar de você. O mundo é visto como um lugar perigoso onde você deve estar sempre de guarda.
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Na vida adulta: Dificuldade em confiar, testar a lealdade dos amigos ou tornar-se agressivo preventivamente.
3. Privação Emocional
A expectativa de que seus desejos de carinho, empatia e proteção nunca serão atendidos. É uma solidão invisível; a pessoa sente que ninguém realmente a entende ou se importa.
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Na vida adulta: Escolher parceiros frios ou não expressar o que sente, reforçando o ciclo de não ser atendido.
4. Defectividade / Vergonha
A sensação de que você é “estragado”, mau, inferior ou inválido por dentro. Se as pessoas te conhecerem de verdade, elas vão te rejeitar.
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Na vida adulta: Hipersensibilidade a críticas, vergonha do próprio corpo ou personalidade, e uma comparação constante com os outros.
5. Isolamento Social / Alienação
O sentimento de ser diferente do resto do mundo, de não fazer parte de nenhum grupo ou comunidade. “Eu sou um peixe fora d’água”.
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Na vida adulta: Evitar situações sociais, sentir-se solitário mesmo em festas e focar excessivamente nas diferenças entre si e os outros.
Domínio II: Autonomia e Desempenho Prejudicados
Surge em famílias que foram superprotetoras ou que não deram segurança para a criança explorar o mundo. O sentimento é: “Eu não consigo sobreviver sozinho”.
6. Dependência / Incompetência
A crença de que você é incapaz de lidar com as responsabilidades diárias (cuidar do dinheiro, tomar decisões, resolver problemas) sem a ajuda de alguém.
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Na vida adulta: Precisar da opinião alheia para tudo e sentir um pânico irracional diante de novas tarefas.
7. Vulnerabilidade ao Dano ou à Doença
O medo exagerado de que uma catástrofe vai acontecer a qualquer momento: um colapso financeiro, um crime, um desastre natural ou uma doença fulminante.
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Na vida adulta: Comportamentos obsessivos com segurança ou saúde, evitando viagens ou riscos calculados.
8. Emaranhamento / Self Subdesenvolvido
Uma proximidade emocional excessiva com os pais ou figuras de autoridade, a ponto de não ter uma identidade própria. A pessoa não sabe onde ela termina e o outro começa.
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Na vida adulta: Sentir culpa por ter segredos ou opiniões diferentes dos pais; viver a vida para satisfazer os desejos de outra pessoa.
9. Fracasso
A crença de que você é inevitavelmente menos competente, talentoso ou bem-sucedido que seus pares. Você se sente um “impostor”.
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Na vida adulta: Procrastinação por medo de errar, ou não tentar promoções e desafios por acreditar que já perdeu a corrida.
Domínio III: Limites Prejudicados
Surge em famílias muito permissivas, onde não houve regras, ou em famílias que deram à criança a sensação de ser superior aos outros. O sentimento é: “Eu posso tudo”.
10. Arrogância / Grandiosidade
A crença de que você é especial, tem direitos exclusivos e não precisa seguir as regras que se aplicam aos “meros mortais”.
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Na vida adulta: Falta de empatia, forçar seu ponto de vista e irritação extrema quando as coisas não saem do seu jeito.
11. Autocontrole / Autodisciplina Insuficientes
Dificuldade em tolerar a frustração para atingir objetivos. A pessoa desiste fácil se algo é chato ou difícil.
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Na vida adulta: Problemas com vícios, dificuldade em manter dietas, exercícios ou empregos que exigem rotina.
Domínio IV: Orientação para o Outro
Surge em famílias onde o amor era condicional: a criança precisava se comportar de certa forma para ser aceita. O foco sai das necessidades da própria pessoa e vai para as necessidades dos outros.
12. Subjugação
A pessoa abre mão do controle sobre seu comportamento e emoções para evitar a raiva ou a retaliação dos outros. Ela se sente forçada a ceder.
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Na vida adulta: Acumular raiva silenciosa (que pode explodir depois) e ter dificuldade em dizer “não”.
13. Autossacrifício
Diferente da subjugação, aqui a pessoa foca nos outros voluntariamente. Ela se sente responsável pelo bem-estar de todos e sente culpa se cuidar de si mesma.
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Na vida adulta: Tornar-se o “ombro amigo” de todos, mas nunca ter quem a ouça; fadiga crônica por carregar o mundo nas costas.
14. Busca de Aprovação / Reconhecimento
O senso de valor depende da reação dos outros. A pessoa precisa ser admirada, famosa ou estar sempre certa para se sentir bem.
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Na vida adulta: Mudar de opinião conforme o grupo, focar excessivamente no status social ou na aparência.
Domínio V: Supervigilância e Inibição
Surge em famílias rígidas, perfeccionistas ou punitivas, onde a expressão de sentimentos era reprimida. O sentimento é: “Devo estar sempre alerta e ser perfeito”.
15. Negativismo / Pessimismo
Um foco constante nos aspectos negativos da vida (dor, morte, perda, erro) enquanto ignora o positivo. É a síndrome do “e se algo der errado?”.
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Na vida adulta: Preocupação crônica, reclamação constante e incapacidade de desfrutar do presente.
16. Inibição Emocional
A repressão de impulsos, sentimentos e comunicação para evitar a vergonha ou a perda de controle. A pessoa parece “robótica” ou excessivamente séria.
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Na vida adulta: Dificuldade em dizer “eu te amo”, em brincar de forma espontânea ou em expressar raiva de forma saudável.
17. Padrões Inflexíveis / Postura Crítica
A crença de que você deve ser o melhor em tudo e que qualquer erro é inaceitável. O foco é na eficiência e na moralidade rígida.
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Na vida adulta: Perfeccionismo paralisante, ser muito duro consigo mesmo e com os outros, e uma incapacidade crônica de relaxar.
18. Punibilidade
A crença de que as pessoas (incluindo você) devem ser severamente punidas pelos seus erros. Não há espaço para o perdão ou para a compreensão das circunstâncias.
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Na vida adulta: Intolerância, raiva punitiva e dificuldade em aceitar a imperfeição humana.
Por que Identificar seu Esquema é Libertador?
Olhar para essa lista pode ser assustador. Muitas pessoas se identificam com vários esquemas ao mesmo tempo. No entanto, segundo Ricardo Wainer, dar nome ao esquema é o primeiro passo para a desidentificação.
Quando você sente aquele aperto no peito e pensa: “Meu marido vai me deixar”, e consegue dizer para si mesma: “Isso não é um fato, é apenas meu Esquema de Abandono sendo ativado”, você cria um espaço entre a emoção e a reação.
Os esquemas foram ferramentas de sobrevivência. Na infância, se seus pais eram imprevisíveis, ter um esquema de “Desconfiança” ajudou você a se proteger. O problema é que a guerra acabou, mas você continua dormindo com a arma debaixo do travesseiro. Identificar o esquema permite que você comece a “desarmar” seu sistema emocional e a construir novas formas de se relacionar com o mundo.
Conclusão
A taxonomia dos 18 esquemas não é um rótulo para te prender, mas um mapa para te libertar. Cada um de nós possui uma combinação única desses esquemas, como uma “assinatura emocional”. Ao entender a lógica por trás das suas dores mais profundas, você deixa de ser um passageiro passivo das suas emoções e se torna o piloto da sua mudança.
No próximo artigo, exploraremos como esses esquemas são transmitidos através das gerações e o papel fundamental da biologia nesse processo.
Referências Bibliográficas
WAINER, Ricardo; PAIM, Kelly; ERDOS, Renata; ANDRIOLA, Rossana (Orgs.). Terapia Cognitiva Focada em Esquemas: Integração em Psicoterapia. Porto Alegre: Artmed, 2016.
YOUNG, Jeffrey E.; KLOSKO, Janet S.; WEISHAAR, Marjorie E. Terapia do Esquema: Guia de Técnicas para o Terapeuta Cognitivo-Comportamental. Porto Alegre: Artmed, 2003.
RAFAELI, Eshkol; BERNSTEIN, David P.; YOUNG, Jeffrey. Terapia Focada em Esquemas: Características Distintivas. Porto Alegre: Artmed, 2012.
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