Já teve a sensação de que você é o seu próprio maior inimigo? Que, por mais que você prometa a si mesmo que “desta vez será diferente”, acaba caindo exatamente na mesma cilada emocional? Talvez você tenha prometido não se envolver com pessoas emocionalmente indisponíveis, mas lá está você, sofrendo por alguém que não responde suas mensagens. Ou talvez tenha jurado que seria mais confiante no trabalho, mas na primeira reunião, o medo de ser descoberto como uma “fraude” te calou novamente.

Por que fazemos isso conosco? Por que nossa mente parece trabalhar contra nossa felicidade?

Para a Terapia do Esquema, fundamentada no Brasil pela obra de Ricardo Wainer, a resposta está nos Processos de Perpetuação. Os esquemas que desenvolvemos na infância não são apenas memórias; eles são estruturas “vivas” que lutam para sobreviver. Neste artigo final do nosso primeiro silo, vamos entender as três principais formas pelas quais mantemos nossas dores vivas: a Manutenção, a Evitação e a Hipercompensação.


1. O Esquema como um Ser Vivo: A Luta pela Sobrevivência

Um esquema desadaptativo é como um inquilino abusivo que se mudou para a sua cabeça quando você era criança. Naquela época, ele pode ter tido uma utilidade (te proteger de um ambiente hostil), mas agora ele só quer manter o controle.

O cérebro humano adora economia de energia. Mudar uma crença profunda gasta muito “combustível” mental. Por isso, o cérebro prefere distorcer a realidade para que ela se encaixe no que ele já conhece, mesmo que esse conhecimento seja doloroso. É o que chamamos de Consistência Cognitiva: é preferível sentir-se “mal, mas em terreno conhecido” do que “bem, mas em território incerto”.


2. O Primeiro Estilo de Sobrevivência: Manutenção (Rendi-se ao Esquema)

A Manutenção é o processo mais direto de perpetuação. É quando você aceita o esquema como uma verdade absoluta. Você não luta contra ele; você se rende. Se o seu esquema diz que “você é um fracasso”, você age, pensa e sente como se realmente fosse um.

Como a Manutenção funciona na prática?

Existem dois mecanismos principais aqui:

  1. Distorções Cognitivas: Seu cérebro vira um mestre em “seleção de fatos”. Se você recebe dez elogios e uma crítica, o esquema de Defectividade fará você ignorar os dez elogios (chamando-os de sorte ou educação) e focar obsessivamente na crítica. Você só enxerga o que confirma sua dor.

  2. Padrões de Comportamento Autoderrotistas: Sem perceber, você escolhe situações ou pessoas que reforçam o esquema. Se você tem um esquema de Abandono, pode acabar escolhendo parceiros que claramente não querem compromisso. Quando eles te deixam, você diz: “Viou? Eu sempre sou abandonado”. O esquema se alimenta da própria tragédia que ele ajudou a criar.

O sentimento na Manutenção: É de resignação. “A vida é assim mesmo”, “Eu nasci assim”, “Não tenho o que fazer”.


3. O Segundo Estilo de Sobrevivência: Evitação (Fugir da Dor)

Se a Manutenção é “sentir a dor e aceitá-la”, a Evitação é o esforço desesperado para não sentir. Como o esquema dói muito quando é ativado (como uma ferida aberta), desenvolvemos mecanismos para garantir que nada toque nessa ferida.

Ricardo Wainer descreve três tipos de evitação:

A. Evitação Cognitiva

É o famoso “não quero nem pensar nisso”. A pessoa evita ler sobre o assunto, evita falar sobre seus problemas ou se distrai freneticamente. O trabalho excessivo (workaholism) costuma ser uma forma de evitação cognitiva: se eu estiver ocupado 20 horas por dia, não sobra tempo para pensar no vazio emocional que sinto.

B. Evitação Emocional

É o “entorpecimento”. A pessoa pode recorrer a substâncias (álcool, drogas), comida em excesso ou até mesmo ao isolamento afetivo para não ter que lidar com a tristeza ou a ansiedade. É como se ela tomasse uma anestesia emocional constante. O problema é que, ao anestesiar a dor, ela também anestesia a alegria.

C. Evitação Comportamental

Aqui a pessoa evita as situações reais. Se ela tem medo de fracassar, ela não vai à entrevista de emprego. Se tem medo de ser rejeitada, ela não sai em encontros. Ela vive em uma “bolha de segurança”, mas essa bolha é, na verdade, uma prisão que impede o seu crescimento.

O sentimento na Evitação: É de vazio e tédio. A vida parece passar em “preto e branco”, sem grandes riscos, mas também sem nenhuma conexão real.


4. O Terceiro Estilo de Sobrevivência: Hipercompensação (Lutar Contra o Esquema)

Este é o estilo mais difícil de identificar, porque, por fora, a pessoa parece o oposto do que sente por dentro. A Hipercompensação é a tentativa de lutar contra o esquema agindo de forma exagerada no sentido contrário.

Se, por dentro, a pessoa se sente pequena e vulnerável (Esquema de Defectividade), por fora ela pode agir de forma arrogante, narcisista ou agressiva (Hipercompensação). Ela tenta “provar” para o mundo e para si mesma que o esquema não é verdade, mas ela faz isso de forma tão rígida e extrema que acaba criando novos problemas.

Exemplos comuns de Hipercompensação:

  • O “Perfeito”: Alguém que se sente incapaz e tenta compensar sendo impecável em tudo, tornando-se um perfeccionista insuportável.

  • O “Rebelde”: Alguém que se sente controlado e compensa desafiando todas as regras e autoridades, mesmo quando isso o prejudica.

  • O “Agressivo”: Alguém que tem medo de ser abusado e compensa tornando-se o agressor, atacando antes de ser atacado.

O problema da Hipercompensação: Ela afasta as pessoas. Quando a pessoa age de forma arrogante para esconder sua insegurança, os outros a rejeitam. Essa rejeição acaba confirmando o esquema original de “eu não sou amável”. Ou seja, o tiro sai pela culatra.

O sentimento na Hipercompensação: É de tensão constante. A pessoa sente que precisa manter uma “máscara” o tempo todo. Se a máscara cair, ela acredita que será destruída.


5. Por que Esses Processos são “Ciladas”?

A grande sacada da Terapia do Esquema, conforme explicada por Wainer, é que esses três estilos de enfrentamento (Rendição, Evitação e Hipercompensação) foram úteis na infância.

Se você tinha pais abusivos, se “render” e ser obediente (Manutenção) ou “fugir” para o seu quarto (Evitação) pode ter sido a única forma de sobreviver com o mínimo de dano. O problema é que você cresceu, o ambiente mudou, mas você continua usando as mesmas táticas de uma criança de 7 anos.

É como se você estivesse usando uma armadura de metal pesadíssima para ir a um jantar romântico ou a uma reunião de amigos. A armadura te protege de flechas que não existem mais, mas te impede de abraçar as pessoas e de se mover com liberdade.


6. O Ciclo da Profecia Autorrealizável

A perpetuação cria o que chamamos na psicologia de Profecia Autorrealizável.

  1. Eu tenho o esquema: “As pessoas vão me trair”.

  2. Eu uso a Hipercompensação: Torno-me um parceiro extremamente controlador e desconfiado, revirando o celular do outro.

  3. Consequência: O parceiro se sente sufocado e sem privacidade e acaba terminando a relação.

  4. Resultado: Eu digo para mim mesmo: “Viu? Eu sabia que não dava para confiar em ninguém”.

O esquema “ganhou”. Ele manipulou o seu comportamento para gerar o resultado que ele previu. Romper esse ciclo exige mais do que força de vontade; exige a percepção consciente de que o seu comportamento está a serviço do seu esquema, e não dos seus objetivos de vida.


7. Como Quebrar as Correntes: O Caminho do Adulto Saudável

Para parar de perpetuar a dor, precisamos fortalecer o que chamamos de Adulto Saudável. Esse processo envolve três passos fundamentais:

  1. Identificação em tempo real: É ser capaz de dizer: “Opa, essa vontade de fugir da festa não sou ‘eu’, é o meu esquema de Isolamento Social tentando me proteger de uma ameaça que não existe”.

  2. Desafio das Distorções: É aprender a olhar para as provas. “Eu realmente sou um fracasso ou estou apenas ignorando meus sucessos por causa do esquema de Fracasso?”.

  3. Ação Oposta: Se o esquema manda você se calar (Manutenção), você fala. Se o esquema manda você fugir (Evitação), você fica. Se o esquema manda você atacar (Hipercompensação), você respira e mostra sua vulnerabilidade.

Este trabalho é o coração da segunda fase da Terapia do Esquema, que veremos no próximo silo de artigos.


Conclusão: A Liberdade de Escolher suas Reações

Nós não escolhemos os esquemas que recebemos. Eles foram “instalados” em nós antes que tivéssemos voz para protestar. No entanto, como adultos, somos responsáveis pelos processos de perpetuação.

Entender se você costuma se render, fugir ou lutar contra sua dor é o primeiro passo para a liberdade. Você não precisa mais ser o escravo de um sistema de defesa infantil. A cura não significa que o esquema vai desaparecer para sempre (ele é como uma cicatriz), mas significa que ele perderá o poder de decidir como você vai agir. Você pode sentir o esquema “gritando” dentro de você e, ainda assim, escolher agir como um Adulto Saudável.

Com este artigo, encerramos o Silo 1: Fundamentos e Arquitetura. Agora que você já conhece as fundações do prédio, está pronto para entrar no Silo 2, onde aprenderá as ferramentas práticas para reformar essa estrutura e construir uma vida emocionalmente mais rica.


Referências Bibliográficas

WAINER, Ricardo; PAIM, Kelly; ERDOS, Renata; ANDRIOLA, Rossana (Orgs.). Terapia Cognitiva Focada em Esquemas: Integração em Psicoterapia. Porto Alegre: Artmed, 2016.

YOUNG, Jeffrey E.; KLOSKO, Janet S.; WEISHAAR, Marjorie E. Terapia do Esquema: Guia de Técnicas para o Terapeuta Cognitivo-Comportamental. Porto Alegre: Artmed, 2003.

BECK, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. Porto Alegre: Artmed, 2013.

RAFAELI, Eshkol; BERNSTEIN, David P.; YOUNG, Jeffrey. Terapia Focada em Esquemas: Características Distintivas. Porto Alegre: Artmed, 2012.


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