Existe uma pergunta que quase todo mundo que inicia um processo de psicoterapia já se fez: “Se o meu passado já aconteceu e não pode ser mudado, de que adianta ficar falando sobre ele?”.

A lógica sugere que o que está feito, está feito. Uma infância marcada por negligência, críticas severas, bullying ou abusos é um fato histórico. Não podemos construir uma máquina do tempo física para voltar a 1995 e impedir que um pai grite com uma criança ou que uma mãe abandone o lar. No entanto, a Terapia do Esquema, ricamente estruturada no Brasil pela obra de Ricardo Wainer e colaboradores, nos traz uma revelação científica revolucionária: nós não precisamos mudar os fatos do passado; precisamos mudar a emoção que ficou presa a eles.

Para o nosso cérebro emocional, o tempo não existe. Um trauma de trinta anos atrás pode ser sentido pelo seu corpo hoje com a exata mesma intensidade de quando aconteceu. Neste artigo, vamos explorar a técnica de Ressignificação através de Imagens Mentais (Imagery Rescripting), uma ferramenta experiencial poderosa que permite ao paciente entrar em suas próprias memórias e “reescrever” o final da história, libertando a sua Criança Vulnerável das correntes do passado.


1. A Limitação da Lógica: Por que “Falar” Não Cura Tudo?

Na psicoterapia tradicional (como a Terapia Cognitivo-Comportamental clássica), o foco principal é o pensamento. O paciente aprende a identificar pensamentos irracionais e a rebatê-los com evidências lógicas. Isso é incrivelmente útil para muitos problemas, mas costuma esbarrar em um limite quando lidamos com traumas infantis profundos ou Esquemas Iniciais Desadaptativos.

Como vimos no artigo sobre neurobiologia (Silo 1), os esquemas estão gravados na amígdala, o centro de alerta do nosso cérebro. A amígdala não entende a linguagem verbal complexa. Ela não fala português, inglês ou matemática. A linguagem da amígdala é feita de imagens, sons, cheiros e sensações corporais.

Você pode repetir para si mesmo mil vezes: “Eu sou um adulto competente, não preciso ter medo do meu chefe”. Essa é a linguagem do córtex pré-frontal (a razão). Mas, se o tom de voz do seu chefe acionar a memória do seu pai autoritário, a sua amígdala vai inundar seu corpo com cortisol (hormônio do estresse) em milésimos de segundo. A razão perde a batalha para a emoção.

É aqui que entram as Técnicas Experienciais. Para curar a ferida emocional, precisamos falar a língua da ferida. Precisamos acessar a emoção através de imagens mentais.


2. O Que é a Reescrita de Imagens Mentais?

A técnica de imagens mentais (ou trabalho com imagens) não é hipnose, não é misticismo e não é regressão de vidas passadas. O paciente está 100% acordado, consciente e no controle durante todo o processo.

A técnica baseia-se na capacidade natural do cérebro de imaginar. Quando você fecha os olhos e imagina vividamente chupar um limão, sua boca se enche de saliva. O seu cérebro respondeu a uma imagem mental com uma reação fisiológica real, mesmo não havendo limão algum. A Terapia do Esquema usa esse exato mecanismo a nosso favor: se uma imagem mental dolorosa pode causar adoecimento, uma imagem mental de cura, vivida com intensidade emocional, pode curar.

A Reescrita de Imagens (Rescripting) significa pegar uma memória infantil dolorosa, onde a criança estava indefesa e com suas necessidades emocionais ignoradas, e introduzir novos elementos nessa memória — como o terapeuta ou o próprio paciente na versão adulta — para proteger a criança e dar a ela o que ela precisava ter recebido.


3. O Início da Jornada: A “Ponte Afetiva”

Como o terapeuta sabe qual memória acessar? Ele não escolhe aleatoriamente. Ele usa o que está acontecendo na vida atual do paciente como ponto de partida, através de uma técnica chamada Ponte Afetiva.

Vamos usar o caso fictício de Lucas. Lucas tem 35 anos e o esquema de Defectividade (sentimento de ser imperfeito e inferior). Toda vez que ele precisa apresentar um projeto na empresa, ele sente um “nó na garganta”, suas mãos suam e ele tem um branco mental.

Passo a Passo da Ponte Afetiva:

  1. O terapeuta pede que Lucas feche os olhos e imagine a cena atual: ele na sala de reuniões, prestes a falar, sentindo o nó na garganta.

  2. O terapeuta pede para Lucas esquecer a sala de reuniões e focar apenas no sentimento corporal: o nó na garganta, o medo de ser julgado, a sensação de ser pequeno.

  3. Então, o terapeuta pede: “Deixe que a sua mente flutue para o passado. Volte no tempo. Quando foi a primeira vez que você sentiu exatamente esse mesmo nó na garganta, esse mesmo medo?”

  4. O cérebro de Lucas, guiado pela emoção (e não pela lógica), traz uma imagem de quando ele tinha 7 anos de idade.

Na memória: O pequeno Lucas derramou um copo de suco na mesa de jantar. Seu pai levanta furioso, grita que ele é um “inútil”, “burro” e o coloca de castigo no escuro. Lucas chora, apavorado e sozinho, acreditando que é realmente mau.

Encontramos a raiz do esquema. O Lucas de 35 anos trava na reunião porque, emocionalmente, ele ainda é o menino de 7 anos esperando o grito do pai a qualquer pequeno erro.


4. A Imersão: Vivendo a Cena (Não Apenas Contando)

Na Terapia do Esquema, não basta o paciente “contar” a história como um jornalista relatando um fato (“Ah, meu pai brigou comigo quando derramei o suco”). O terapeuta pede que o paciente viva a cena no tempo presente, usando a primeira pessoa do singular.

“Lucas, olhe ao redor. Onde você está? Como é a mesa? Qual é a expressão no rosto do seu pai? O que você está sentindo no seu corpo agora?”

Ao fazer isso, o paciente se conecta com a sua Criança Vulnerável. As lágrimas frequentemente começam a cair. É doloroso, mas é um ambiente seguro. A dor que antes estava “congelada” e bloqueada começa a derreter para poder ser limpa. A diferença crucial entre a Terapia do Esquema e a simples “exposição ao trauma” é que nós não deixamos o paciente sofrer sozinho na memória. Nós vamos intervir.


5. A Reescrita Nível 1: O Terapeuta Entra em Cena

É aqui que a magia da Reparentalização Limitada (Artigo 1 do Silo 2) entra no campo da imaginação. O terapeuta pede permissão para entrar na imagem mental do paciente.

Terapeuta: “Lucas, eu estou entrando nessa sala de jantar agora. Você me vê?” Lucas: “Sim, você está do lado da porta.” Terapeuta: “Eu estou vendo o que o seu pai está fazendo com você e isso não é justo. Eu vou intervir. Vou me colocar entre você e o seu pai.”

O terapeuta pede que Lucas imagine essa cena. O terapeuta, com sua autoridade de adulto, “enfrenta” o antagonista da memória. Terapeuta na imagem: “Senhor, pare de gritar com o Lucas agora. Ele é apenas uma criança de 7 anos. Crianças derramam suco, isso é normal. Você não tem o direito de chamá-lo de inútil. O erro é seu por não ter paciência, e não dele. Afaste-se.”

O impacto neurobiológico disso é estrondoso. Durante toda a sua vida, a memória de Lucas dizia que ele era culpado e que não havia proteção. De repente, a mente dele visualiza e sente uma figura de apego forte e protetora defendendo-o e dizendo “a culpa não é sua”. O cérebro emocional absorve essa nova informação. A tensão corporal diminui.

O terapeuta, então, vira-se para o pequeno Lucas na imagem: “Você está seguro agora. Eu não vou deixar ele te machucar. Você é um menino bom e inteligente, foi só um acidente.” O terapeuta pede que a criança expresse o que precisava expressar na época e não pôde (choro, raiva, medo), e a acolhe mentalmente.


6. A Reescrita Nível 2: O Despertar do Adulto Saudável

Se o terapeuta fizer todo o trabalho de resgate para sempre, o paciente criará uma dependência (o esquema de Dependência poderia ser ativado). O objetivo da terapia é sempre a autonomia. Portanto, à medida que a terapia avança, a responsabilidade de resgatar a Criança Vulnerável passa do terapeuta para o próprio paciente.

Em sessões posteriores, o processo ganha uma nova etapa. O Lucas de 35 anos (o Adulto Saudável) é quem vai entrar na cena para salvar o Lucas de 7 anos (a Criança Vulnerável).

O Adulto Saudável entra na cena: Ele tira a criança da sala, confronta o pai e diz: “Você não pode falar assim comigo, eu mereço respeito”. Em seguida, o Adulto Lucas leva o pequeno Lucas para um lugar seguro na imaginação (um parque, um quarto aconchegante) e dá a ele o conforto e o limite que faltaram.

Quando o paciente consegue se imaginar abraçando a sua própria criança interna, enxugando suas lágrimas e lhe dando coragem, ele alcançou o ápice da cura emocional: a Autocompaixão. Ele se tornou a figura materna e paterna que ele sempre buscou desesperadamente nos outros (em parceiros amorosos, em chefes, em amigos). A ferida do esquema perde a força matriz.


7. Mas e se a pessoa não conseguir imaginar? O Modo Protetor Desligado

Ler sobre esse processo pode parecer simples, mas na prática clínica, a obra de Ricardo Wainer nos alerta para um fenômeno muito comum: a evitação.

Muitos pacientes relatam: “Doutor, eu fecho os olhos e não vejo nada, é tudo preto”, ou “Minha mente começou a pensar no que vou fazer para o jantar”, ou ainda “Isso é muito bobo, eu não consigo visualizar”.

Isso não significa que o paciente não tem imaginação. Isso significa que o Protetor Desligado (um modo de enfrentamento evitativo) entrou em ação. A dor que está escondida por trás daquela porta é tão intensa que a mente do paciente corta o acesso à imaginação para protegê-lo de uma possível desestruturação emocional.

Como o terapeuta lida com isso? Com enorme respeito e paciência. O terapeuta não força a porta. Ele usa a Confrontação Empática (Artigo 2 deste Silo). Terapeuta: “Eu percebo que a sua mente ficou em branco agora. Faz muito sentido que isso aconteça. Se nós abrirmos essa porta, pode haver uma dor imensa ali, e uma parte sua está tentando desesperadamente protegê-lo dessa dor. Eu agradeço a esse seu lado protetor. Mas eu estou aqui com você, é seguro tentar abrir a porta só uma frestinha. Se ficar muito difícil, nós paramos.”

Quando o modo protetor se sente respeitado (e não atacado ou criticado por “não estar colaborando com a terapia”), ele relaxa, e as imagens geralmente começam a fluir naturalmente.


8. Ressignificando a Raiva: Expressando o Inexpressável

Além do medo e da tristeza, uma das emoções mais paralisantes nas memórias de trauma é a raiva reprimida. Crianças que sofreram abuso físico, sexual ou humilhações constantes frequentemente não puderam expressar raiva contra os seus abusadores. Se fizessem isso, a punição seria ainda pior.

Na vida adulta, essa raiva contida vira depressão, dores crônicas (fibromialgia, enxaquecas) ou explosões de fúria desproporcionais com pessoas inocentes no trânsito ou no trabalho.

O trabalho com imagens mentais é o lugar mais seguro do mundo para liberar essa raiva. Na imaginação, tudo é permitido, pois ninguém sairá machucado na vida real. O terapeuta encoraja o paciente (no papel de Adulto Saudável) a expressar sua fúria contra o abusador dentro da imagem mental.

O paciente pode imaginar-se gritando verdades na cara daquele pai alcoólatra, ou dizendo “você me dá nojo” para a pessoa que o violou, ou até mesmo agredindo simbolicamente (empurrando, expulsando da casa) aquele agressor dentro da fantasia.

Nota importante: Isso não incentiva a violência real. Pelo contrário. Ao descarregar essa energia represada no ambiente virtual e seguro da mente, o sistema nervoso do paciente finalmente se acalma. A necessidade de justiça da criança é atendida de forma simbólica. O paciente sai da sessão sentindo um alívio físico palpável, como se tivesse tirado uma mochila de pedras das costas.


9. O Impacto a Longo Prazo: Refazendo o Futuro

Após repetidas sessões utilizando a reescrita de imagens, algo notável acontece. Voltemos ao Lucas. Algumas semanas depois, ele está novamente prestes a fazer uma apresentação para a diretoria.

O chefe levanta a voz. A amígdala de Lucas, condicionada por décadas, tenta disparar o alarme de pânico. A imagem do pai gritando na mesa de jantar tenta surgir. Mas, imediatamente, o cérebro dele puxa a nova memória construída na terapia: a imagem do terapeuta (ou do próprio Lucas adulto) parando o pai, dizendo que a culpa não era do menino, e confortando a criança.

A ativação do esquema perde a força. O nó na garganta não se forma. Lucas respira fundo e, agindo a partir do seu Adulto Saudável, conduz a apresentação com calma. A história mudou porque o significado da emoção mudou.


Conclusão: Você é o Diretor da Própria História

A genialidade do trabalho experiencial, profundamente fundamentado na obra de Ricardo Wainer e Jeffrey Young, reside em compreender que o cérebro humano é flexível (neuroplasticidade). Nós fomos programados pelas nossas experiências de infância, mas o “código-fonte” dessa programação não está bloqueado com senha. Ele pode ser acessado através da emoção pura.

As imagens mentais nos devolvem o poder. O paciente deixa de ser o ator coadjuvante de uma tragédia que escreveram para ele, e passa a assumir a cadeira do Diretor do filme da sua própria vida.

Reescrever uma imagem não apaga a injustiça que aconteceu. Um abuso sempre será um abuso. Uma negligência sempre será uma falta de amor. O passado permanece como um fato no currículo da sua vida. No entanto, através deste processo de amor, coragem e conexão terapêutica, esse passado deixa de ditar as regras do seu presente e perde a capacidade de destruir o seu futuro. Você, finalmente, volta a ser dono de si mesmo.


Referências Bibliográficas

WAINER, Ricardo; PAIM, Kelly; ERDOS, Renata; ANDRIOLA, Rossana (Orgs.). Terapia Cognitiva Focada em Esquemas: Integração em Psicoterapia. Porto Alegre: Artmed, 2016.

YOUNG, Jeffrey E.; KLOSKO, Janet S.; WEISHAAR, Marjorie E. Terapia do Esquema: Guia de Técnicas para o Terapeuta Cognitivo-Comportamental. Porto Alegre: Artmed, 2003.

ARNTZ, Arnoud; JACOB, Gitta. Terapia do Esquema na Prática: Um Guia Introdutório para o Trabalho com os Modos Esquemáticos. Porto Alegre: Artmed, 2015.

FARRELL, Joan M.; SHAW, Ida A. Trabalho Experiencial em Terapia do Esquema. Porto Alegre: Artmed, 2019.

VAN DER KOLK, Bessel. O Corpo Expulsa o que a Mente Cala: O Papel do Trauma na Cura. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.


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