Você já teve a experiência de cometer um erro bobo e, de repente, ouvir uma voz na sua cabeça dizendo: “Você é um idiota, não faz nada direito!”? E, momentos depois, uma outra voz diz: “Não liga para isso, vamos beber algo e esquecer, amanhã é outro dia”? Ou talvez você conheça alguém que costuma ser uma pessoa doce e pacífica, mas que, ao ser contrariada, “vira a chave” e se transforma em alguém explosivo, irracional e cruel, quase como se fosse uma pessoa completamente diferente.
Por muito tempo, a psicologia e a psiquiatria tiveram extrema dificuldade em tratar pacientes que apresentavam essas mudanças bruscas de humor e comportamento — especialmente aqueles diagnosticados com Transtorno da Personalidade Borderline ou Narcisista. A terapia tradicional, focada na lógica, fracassava quando a pessoa “mudava de estado”, pois o paciente calmo da semana passada não era o mesmo paciente em crise desta semana.
Foi para resolver esse quebra-cabeça que Jeffrey Young, criador da Terapia do Esquema, desenvolveu o conceito de Modos Esquemáticos. Amplamente detalhado na obra de Ricardo Wainer e colaboradores, o trabalho com Modos é, hoje, o padrão-ouro para o tratamento de traumas complexos e transtornos de personalidade. Neste artigo, vamos entender como funciona a nossa mente multifacetada e como a terapia nos ajuda a assumir a “direção” desse elenco interno.
1. Esquemas vs. Modos: Qual é a Diferença?
No Silo 1, nós estudamos os 18 Esquemas Iniciais Desadaptativos (como Abandono, Defectividade, Privação Emocional).
Pense nos Esquemas como os aplicativos instalados no seu celular. Eles estão sempre lá, gravados na memória do aparelho (na sua personalidade), mesmo quando o celular está com a tela apagada. São traços permanentes. Os Modos, por outro lado, são os aplicativos que estão abertos e rodando na tela agora. É o seu estado atual.
Quando a vida está tranquila, seus esquemas estão adormecidos. Mas, quando um gatilho emocional ocorre (por exemplo, seu parceiro visualiza sua mensagem e não responde), vários aplicativos (esquemas de abandono, rejeição, desconfiança) são ativados ao mesmo tempo. Essa sobrecarga de esquemas funde-se em um único estado de humor intenso, dominando seu comportamento. Esse estado é o Modo.
Quando você está em um determinado Modo, você pensa, sente e age de acordo com as regras desse Modo, muitas vezes perdendo o acesso à sua própria racionalidade e maturidade.
2. A Divisão do Elenco: As Quatro Famílias de Modos
Para facilitar o tratamento, a Terapia do Esquema dividiu nossos estados internos em quatro grandes categorias. Imagine que a sua mente é uma peça de teatro e esses são os personagens que lutam pelo papel principal:
A. Os Modos Criança (O Coração da Dor)
Nós nascemos crianças e, no fundo do nosso cérebro emocional, continuamos sendo. Os Modos Criança abrigam nossas emoções mais puras, inatas e intensas.
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Criança Vulnerável: É a parte de nós que carrega toda a dor dos traumas infantis. Quando ativada, você se sente assustado, solitário, indefeso, triste e rejeitado. É o paciente que chora copiosamente no consultório, sentindo-se pequeno diante do mundo.
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Criança Zangada: Quando a criança vulnerável tem suas necessidades básicas negadas ou sofre injustiças, ela fica com raiva. Este modo é impulsivo, grita, bate portas e exige seus direitos. É uma raiva “infantil”, desproporcional e explosiva.
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Criança Impulsiva/Indisciplinada: Focada apenas no prazer imediato. Não quer saber de consequências. É a voz que diz: “Eu mereço gastar esse dinheiro”, “Vou comer esse bolo inteiro”, ou que abandona tarefas chatas no meio.
B. Os Modos Pais Disfuncionais (Os Inimigos Internos)
Nós não nascemos com essas vozes. Nós as “engolimos” (introjetamos) do nosso ambiente. Elas são a internalização das vozes dos nossos pais, cuidadores, professores ou de uma sociedade opressora.
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Pai Punitivo/Crítico: É a voz da culpa e do ódio por si mesmo. Ele odeia a Criança Vulnerável. Diz coisas como: “Você é um fracasso”, “Você tem que sofrer”, “Você é gordo, feio, inútil”. Nos casos mais graves, é este modo que ordena que o paciente se mutile ou cometa suicídio.
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Pai Exigente: Diferente do punitivo, este não pune pelo que você é, mas pressiona infinitamente pelo que você faz. Ele diz: “Você tem que ser o melhor”, “Tirar 9 não é suficiente, tem que ser 10”, “Você não tem o direito de descansar”. É o grande causador da Síndrome de Burnout.
C. Os Modos de Enfrentamento Desadaptativos (Os Escudos Protetores)
Se a Criança chora e o Pai Punitivo bate nela, o sofrimento interno se torna insuportável. Para sobreviver a essa guerra interna, desenvolvemos os “Protetores”. (Semelhantes aos estilos de enfrentamento que vimos no artigo 6 do Silo 1).
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Rendido Submisso: O paciente desiste de lutar. Ele obedece cegamente ao Pai Punitivo e a todas as pessoas abusivas ao seu redor. Age como um capacho, agradando a todos para evitar conflitos.
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Protetor Desligado (Evitativo): Este é o anestesista da mente. Ele corta as emoções. A pessoa fica “robótica”, cínica, vazia. Para desligar a dor, este modo frequentemente recorre ao abuso de álcool, drogas, vícios em jogos, sexo compulsivo ou apenas ficar rolando o feed do celular por 8 horas seguidas. Ele protege a criança da dor, mas também a afasta do amor.
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Supercompensador: A melhor defesa é o ataque. Para não se sentir inferior, ele age com superioridade. Ele humilha os outros, controla o ambiente, torna-se agressivo, workaholic ou busca status desenfreadamente. Ele tenta matar o esquema de defeituosidade provando ser um “deus” na Terra.
D. O Modo Adulto Saudável (O Maestro)
É a parte executiva, madura e racional da nossa mente. O Adulto Saudável é capaz de sentir empatia, assumir responsabilidades, proteger a criança vulnerável, trabalhar, amar e se divertir. Atenção: Em pacientes com transtornos graves, o Adulto Saudável é quase inexistente no início da terapia. O objetivo da psicoterapia é construí-lo e fortalecê-lo.
3. O Transtorno de Personalidade Borderline: Uma Batalha de Modos
Para entender o poder clínico dos Modos, vamos olhar para o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Pessoas com TPB sofrem de uma desregulação emocional avassaladora e de um medo crônico do abandono. Antes da Terapia do Esquema, muitos terapeutas desistiam desses pacientes.
Através das lentes da Terapia do Esquema, o paciente Borderline não é “manipulador” ou “louco”. Ele é uma pessoa sem a função de freio (Adulto Saudável), que fica saltando caoticamente entre Modos extremos:
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Gatilho: O namorado diz que vai sair com os amigos.
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Criança Vulnerável: É ativada instantaneamente. A paciente sente um pavor absoluto de ser abandonada. Sente uma dor física no peito.
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Pai Punitivo: A voz interna ataca: “Ele está indo porque você é chata. Ninguém nunca vai te amar de verdade, você é um peso.”
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Criança Zangada: A dor vira raiva explosiva. Ela liga para o namorado gritando, quebrando as coisas, dizendo “Eu te odeio, não volte mais!”
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Protetor Desligado: Após a explosão, a culpa imposta pelo Pai Punitivo é tão grande que a mente entra em colapso. O Protetor Desligado entra em ação para anestesiar. A paciente se corta (autolesão), não para se matar, mas para a dor física aliviar a dor mental e para se “desligar” da emoção.
Quando o terapeuta entende este ciclo, ele para de julgar o comportamento (cortar-se, gritar) e foca em tratar o Modo.
4. O Transtorno de Personalidade Narcisista: O Castelo de Ilusões
O narcisismo também é perfeitamente explicado por este modelo. A pessoa com Transtorno da Personalidade Narcisista foi, paradoxalmente, uma criança muito humilhada, criticada ou usada como um “troféu” condicional pelos pais.
A Criança Vulnerável do narcisista está soterrada sob toneladas de vergonha (Esquema de Defectividade). Ele morre de medo de ser visto como “comum” ou “inferior”. Para sobreviver, ele ativa o Modo Supercompensador em tempo integral. Ele se torna grandioso, arrogante, exige tratamento especial e carece de empatia. Ele se infla para não desaparecer.
Na terapia, se o terapeuta confrontar diretamente a grandiosidade (o Supercompensador), o paciente atacará o terapeuta e abandonará o tratamento. O terapeuta treinado em esquemas entende que o arrogante na sua frente é, na verdade, um “guarda-costas” muito agressivo protegendo uma criança apavorada. O trabalho do terapeuta é negociar com o guarda-costas para conseguir chegar até a criança.
5. A Técnica das Cadeiras (Chairwork): O Teatro Terapêutico
Se a Terapia do Esquema entende que temos múltiplas “pessoas” dentro de nós, como conversamos com elas? É aqui que a obra de Wainer descreve uma das ferramentas mais brilhantes emprestadas da Gestalt-terapia: o Trabalho com Cadeiras.
No consultório (ou de forma imaginária no atendimento online), o terapeuta dispõe várias cadeiras vazias ao redor do paciente. Cada cadeira representa um Modo. Isso retira a confusão mental da cabeça do paciente e a materializa no espaço físico da sala.
Como funciona na prática?
Imagine que o paciente (Marcos) cometeu um erro no trabalho e está paralisado de ansiedade, com pensamentos suicidas e uma voz dizendo que ele é um lixo.
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Identificando os Atores: O terapeuta percebe que a voz que o chama de “lixo” é o Pai Punitivo, a parte que quer se esconder é a Criança Vulnerável, e a parte que não sente nada é o Protetor Desligado.
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A Cadeira do Pai Punitivo: O terapeuta pede que Marcos sente em uma cadeira específica e “incorpore” a voz punitiva. Marcos assume uma postura dura e diz: “Você é um inútil, Marcos.”
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A Cadeira da Criança: O terapeuta pede que Marcos mude para a cadeira da Criança e diga como se sente ao ouvir aquilo. Marcos encolhe os ombros e chora: “Eu tenho medo, eu nunca sou bom o suficiente.”
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A Intervenção do Terapeuta: É neste momento que a magia acontece. O terapeuta não pede que o próprio Marcos resolva isso (ele está frágil). O terapeuta se levanta, vira-se para a cadeira do Pai Punitivo e entra em combate.
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Terapeuta: “Eu não vou permitir que você fale assim com o Marcos! Ele cometeu um erro no relatório, como qualquer ser humano. Você é uma voz cruel, repetindo os abusos que o pai verdadeiro dele fez no passado. Você não tem lugar na vida adulta do Marcos. Saia daqui!”
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A Cadeira do Adulto Saudável: Com o tempo, o terapeuta pede que o próprio Marcos ocupe uma nova cadeira — a do Adulto Saudável — e comece ele mesmo a combater o Pai Punitivo e a consolar a Criança Vulnerável.
Por que a técnica das cadeiras funciona tão bem? Porque ela “desfunde” o paciente. Quando o paciente diz “Eu sou um lixo”, ele está fundido com o Pai Punitivo. Ao colocar o Pai Punitivo numa cadeira separada, o paciente percebe: “Espera aí… eu não sou um lixo. Essa voz é o meu Pai Punitivo. Isso é só uma parte minha, não a minha identidade inteira”. Isso traz um alívio imediato e reduz o risco de impulsos graves.
6. O Manejo Direto dos Modos na Sessão
O manual de intervenção detalha exatamente como o terapeuta e, posteriormente, o paciente (através de seu Adulto Saudável) devem tratar cada modo:
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Com a Criança Vulnerável: Nós acolhemos, validamos e protegemos. Oferecemos colo (metafórico). Damos voz à sua dor e garantimos que as necessidades dela sejam supridas agora.
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Com a Criança Zangada/Impulsiva: Nós limitamos. Como uma boa mãe lidando com um filho fazendo birra no supermercado, nós validamos a frustração (“Eu entendo que você está com raiva”), mas bloqueamos a ação (“Mas não vou permitir que você bata em ninguém ou se machuque”).
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Com os Modos de Enfrentamento (Protetor, Supercompensador, Rendido): Nós negociamos e contornamos. Nós agradecemos a esses protetores por terem ajudado o paciente a sobreviver na infância, mas mostramos as evidências de que hoje, na vida adulta, a estratégia deles está arruinando a vida do paciente. Pedimos, gentilmente, que eles “saiam da frente” para podermos curar a Criança.
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Com os Modos Pais Disfuncionais (Punitivo/Exigente): Nós expulsamos, combatemos e amordaçamos. Não se negocia com o Modo Punitivo. Ele é um vírus na mente. O terapeuta usa tom de voz firme e autoridade para banir essa voz da sessão.
7. O Objetivo Final: Construindo o Maestro (Adulto Saudável)
Muitos pacientes chegam à terapia perguntando se os modos negativos vão “morrer”. A neurociência sugere que caminhos neurais antigos não desaparecem completamente, mas eles atrofiam se não forem usados.
O verdadeiro propósito da Terapia do Esquema focada em modos não é fazer de você um monge iluminado que nunca sente raiva (Criança Zangada) ou medo (Criança Vulnerável). O objetivo é construir e hipertrofiar o seu Adulto Saudável.
Imagine que a sua mente é uma orquestra. Atualmente, os músicos (os modos) estão tocando cada um a sua música, na altura que querem, brigando entre si. O resultado é o caos e a dor. A psicoterapia constrói o Maestro.
Quando o Adulto Saudável é forte, ele percebe: “Opa, a voz do perfeccionismo (Pai Exigente) está tentando assumir o comando porque tenho uma reunião amanhã. Minha Criança Vulnerável está com medo de fracassar. Meu Protetor Desligado quer que eu beba três taças de vinho para não pensar nisso”.
Ao invés de ser engolido por essa dinâmica, o Adulto Saudável toma o controle: ele silencia o Pai Exigente, valida e acalma a Criança Vulnerável, diz ao Protetor Desligado que não há necessidade de álcool hoje, e senta para se preparar para a reunião de forma equilibrada.
Conclusão: A Integração do Ser
O modelo de Modos Esquemáticos, trazido de forma magistral à nossa língua pelos esforços acadêmicos de Ricardo Wainer e sua equipe, tirou o estigma dos transtornos de personalidade. Ele devolveu a humanidade a pacientes que eram rotulados como “difíceis”, “tóxicos” ou “incuráveis”.
Entender seus modos é um ato profundo de autocompaixão. É reconhecer que os seus comportamentos mais vergonhosos, suas explosões de raiva e seus momentos de apatia não são falhas de caráter, mas as vozes desesperadas de partes de você que ficaram presas na dor.
Na cadeira do terapeuta, o paciente aprende que não precisa odiar as suas defesas. Ele aprende a agradecer ao seu elenco interno pelas estratégias de sobrevivência, ao mesmo tempo em que as demite de seus cargos, anunciando uma nova era: a era em que o Adulto Saudável finalmente senta no trono e governa a própria vida com empatia, limites e amor real.
No próximo artigo, nosso quinto encontro do Silo 2, abordaremos uma vertente extremamente desafiadora e fascinante: como a Terapia do Esquema entra no complexo mundo dos casamentos e relacionamentos amorosos, lidando com a “química” dos esquemas entre parceiros.
Referências Bibliográficas
WAINER, Ricardo; PAIM, Kelly; ERDOS, Renata; ANDRIOLA, Rossana (Orgs.). Terapia Cognitiva Focada em Esquemas: Integração em Psicoterapia. Porto Alegre: Artmed, 2016.
YOUNG, Jeffrey E.; KLOSKO, Janet S.; WEISHAAR, Marjorie E. Terapia do Esquema: Guia de Técnicas para o Terapeuta Cognitivo-Comportamental. Porto Alegre: Artmed, 2003.
ARNTZ, Arnoud; JACOB, Gitta. Terapia do Esquema na Prática: Um Guia Introdutório para o Trabalho com os Modos Esquemáticos. Porto Alegre: Artmed, 2015.
FARRELL, Joan M.; SHAW, Ida A.; FALK, Reiss N. A Terapia do Esquema na Prática: Um Guia Introdutório para o Trabalho com os Modos Esquemáticos. Porto Alegre: Artmed, 2015.
BECK, Aaron T.; DAVIS, Denise D.; FREEMAN, Arthur. Terapia Cognitiva dos Transtornos da Personalidade. Porto Alegre: Artmed, 2017.
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